Acordo Mercosul-UE: os riscos ocultos para o produtor brasileiro
Setores de azeite e vinhos alertam para concorrência desleal e perda de competitividade dos produtos nacionais

Imagem gerada por IA
Acesso a mercados, eliminação de impostos e mais competitividade. Esses são alguns dos benefícios do acordo entre Mercosul e União Europeia, que entrou em vigor provisoriamente em 1º de maio. Para os setores de proteína animal, frutas e café solúvel do Brasil, as oportunidades já se traduzem em ganhos quase imediatos.
Mas nem todos os segmentos avaliam o acordo de forma positiva. Entidades representativas dos setores de azeite e vinhos do país veem risco de concorrência desleal e desequilíbrio de mercado com a entrada de produtos do bloco europeu.
“Teremos a entrada facilitada de produtos com tributos menores que os nossos, o que faz com que o consumidor opte pelo produto mais barato”, diz Luciano Rebelatto, presidente do Consevitis-RS, que representa o setor de vitivinicultura no Rio Grande do Sul. Com a deterioração da economia, ele também avalia que a procura por produtos mais baratos deve ser ainda maior.
No caso do comércio de azeite, o setor defende o avanço do tratado Mercosul-UE, mas afirma que ele não muda o cenário no Brasil. Isso porque os produtos do bloco europeu já têm as alíquotas zeradas desde março de 2025. Por outro lado, há a avaliação de que o acordo traz um cenário injusto para o produtor brasileiro.
“Os produtores europeus recebem subsídios governamentais para a produção de azeite na União Europeia”, afirma Flávio Obino Filho, presidente do Instituto Brasileiro de Olivicultura (Ibraoliva). Segundo ele, a pretensão do setor é que o imposto de comercialização do azeite produzido no Brasil seja zerado.
Azeite: competitividade, fraudes e pressão sobre o produtor nacional
Além da diferença tributária, o setor de olivicultura também demonstra preocupação com a concorrência de produtos importados considerados irregulares. Segundo o Ibraoliva, parte dos azeites vendidos no Brasil como extravirgens apresenta problemas de qualidade e rotulagem.
A entidade afirma que a fiscalização do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) avançou após a criação de um painel sensorial para análise dos produtos importados. Nos primeiros testes, mais de 90% dos azeites avaliados e rotulados como extravirgens foram desclassificados para categorias inferiores, como virgem ou lampante.
“O setor clama pela imediata apresentação do laudo de análise sensorial e reitera o pedido de fortalecimento da fiscalização dos azeites importados comercializados como se extravirgens fossem”, afirma Obino Filho.
Vinhos: menos carga tributária e mais comunicação
De acordo com Eduardo Piaia, diretor-executivo do Consevitis-RS, o setor vitivinícola brasileiro sempre saiu perdendo na concorrência mundial do vinho. Nesse sentido, ele chama a atenção para a carga tributária elevada.
“Além disso, o setor brasileiro é mais jovem, com menos tempo de produção e menor reconhecimento internacional”, afirma. Ele também destaca a necessidade de avançar em articulação com governos e órgãos públicos, além das negociações internacionais.
Segundo Piaia, as principais prioridades do Consevitis-RS são a questão tributária, o custo de produção, incluindo investimentos e apoio ao setor, e a imagem do produto brasileiro, já que o consumidor ainda associa o produto importado a uma qualidade superior. “Existe uma cultura de valorizar o que vem de fora”, observa.
“Hoje temos total segurança para afirmar que os nossos produtos melhoraram muito e têm condições de competir com qualquer lugar do mundo”, conclui.
Suco de uva como válvula de escape
Diante dos riscos de perda de competitividade com o acordo Mercosul-UE, o presidente do Consevitis-RS aponta o suco de uva como “válvula de escape” para sustentar o setor.
“Pecamos muito por não termos incluído o suco de uva, que é um produto natural e original do Brasil e poderia servir como uma moeda de troca”, diz. A uva, por outro lado, foi incluída entre os produtos que são importados pela União Europeia com alíquota zero.
Sobre o consumo de vinho, Rebelatto alerta que o Brasil tem um grande potencial de crescimento, diferente dos países europeus, que estão com excedente de produção. “O consumo está caindo na Europa e no mundo inteiro, e o Brasil está sendo visto como um mercado-alvo para a comercialização desses excedentes”, afirma.
Tendências e novos hábitos de consumo
O setor vitivinícola também acompanha mudanças no comportamento do consumidor. Segundo Rebelatto, há uma tendência global de redução no consumo de álcool, o que já leva as vinícolas brasileiras a investirem em produtos mais leves e até desalcoolizados.
“O setor já entendeu essa mudança de mercado”, afirma. Com isso, o suco de uva ganha ainda mais relevância para as empresas do segmento, especialmente diante da busca por produtos considerados mais naturais.
Apesar das preocupações com o aumento da competitividade, representantes do setor avaliam que a maior presença de vinhos europeus no Brasil também pode ampliar o interesse do consumidor pela categoria. A expectativa é que parte desse público passe, posteriormente, a consumir rótulos nacionais.
Segundo o Consevitis-RS, o consumo brasileiro de vinho ainda é considerado baixo, com média próxima de 2 litros per capita por ano, o que indica espaço para expansão do mercado interno nos próximos anos.
